
Sou do tempo do Armazém, da compra em cadernetas. Há pouco tempo atrás, nós do lado de cá do balcão pedíamos o produto que estava do lado de lá desse mesmo balcão. O arroz e feijão eram estocados em sacas de linho e vendidos em pacotes de papel; o óleo era vendido a granel retirado do tambor. Talvez para a geração de jovens e adolescentes isso é um mundo desconhecido. Talvez tenham dificuldades em compreender alguns dos substantivos utilizados neste parágrafo. Isso não somente me lembra a idade que tenho, mas me lembra também uma mudança profunda em nosso comportamento.
Antes éramos atendidos e levávamos para casa o que pedíamos ao dono do armazém ou alguém de sua família que trabalhava com ele nesse negócio familiar. Logo que chegamos de Mato Grosso, por exemplo, ficamos muito tempo sem comer pão doce porque o dono da padaria nem sabia o que era isso, até descobrirmos que em Goiás pão doce era chamado de rosca. Era assim antes, comprar era aprendizado, cultura e conhecimento. Mas depois, ah! Depois. Surgiram os supermercados gigantescos, iluminados e informatizados. Com eles veio o “espírito Self-Service”. Agora eu não peço, e nem sou servido, eu me sirvo ou eu simplesmente escolho. Nas prateleiras tenho tudo o que desejo, a partir daí a escolha é minha.
Fazer compras deixou de ser um relacionamento e passou a ser um entretenimento ou mero consumo. Ao invés de termos conhecimento mútuo (entre o dono do armazém e a vizinhança) somos fidelizados pelas vantagens que nos são oferecidas. Ao invés do papo com seu Valdemar ou Ari da mercearia, o silêncio solitário e insosso do “não lugar” dos hipermercados. A questão é que esse comportamento saiu dos supermercados, restaurantes e shoppings e assumiu nossa vida. Adentrou os nossos sentimentos mais íntimos e, como tirano, determinou nossa conduta. Aos nossos olhos tudo está na prateleira, é só escolher o que melhor atende o nosso “custo-benefício”. Produtos, carreiras e pessoas estão ao nosso dispor, e nós temos o controle de todos eles. O espírito Selfe-Service faz com que pessoas imersas em nossa cultura escolham e usem outras pessoas também. Não sabemos nos relacionar, apenas consumir. Desaprendemos a conhecer e conviver, somos hábeis apenas para usar.
Nem mesmo a vida cristã foi poupada. A maneira como as pessoas freqüentem e desenvolvem sua relação com as suas igrejas revela o mesmo espírito Self-Service. Cito aqui apenas três exemplos, em primeiro lugar o culto não é mais o exercício de corações rendidos e gratos a Deus por sua obra salvífica em Cristo. Agora, vimos ao culto consumir boa música e boa mensagem, lembrando que boa é usada aqui no sentido mais subjetivo possível, ou seja, o que me agrada. Como no supermercado ou restaurante eu simplesmente levo do culto o que nas “prateleiras gospel” pode me interessar. O que não desejo permanece lá para outro cliente. Em segundo lugar, percebo que a igreja não é um lugar de relacionamento, mas de consumo. Não é um lugar de conhecimento mútuo, mas de serviço que me é prestado. Não é um lugar que vou, ou mais do que isso, um povo ao qual eu pertenço para servir, mas um serviço que consumo a cada fim de semana. Em terceiro lugar, os próprios ministérios da igreja podem, e em geral são, orientados não para levar a pessoa a Cristo e seu evangelho, mas para fidelizar clientes. Eles devem congregar conosco, não porque compreendeu a mensagem da cruz, mas por que foi simpaticamente recebido. É mais importante ser uma igreja acolhedora que uma igreja verdadeira.
Em tempos assim, quando se consome de tudo, religião, igreja, pessoas e inclusive Deus, só penso quanta saudade sinto dos armazéns!
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