Seria Otelo vítima da inveja e vingança de Iago ou vilão por seus ciúmes doentios e descontrolados? E os Macbeth seriam vilões por sua ambição ou vítimas de sua culpa? Deixando a ficção Shakesperiana de lado e adentrando a realidade, se é que entramos na realidade, penso que quase sempre somos invadidos por ela. Mas, entrando na realidade, seria Ahmadinejad vilão por sua corrida armamentista e as constantes violações dos direitos humanos ou vítima de uma religião fanática que produz cegueira espiritual? Ou quem sabe, olhando para o próprio quintal, seriam os deputados vilões por propor suspender as sessões da câmara por causa da Copa do Mundo ou vítimas de uma cultura que transforma jogador de futebol em herói nacional? Não se trata de relativização do mal ou justificativas para os erros. Mas como poeticamente nos diz Caymmi:
Eu guardo em mimE para quem julga pouco bíblica essa minha introdução, valeria lembrar que ela é a tradução “pagã” do ensino bíblico da pervasividade do pecado conforme ensinado por Paulo em Romanos 7 e demonstrado em histórias como a de Ló, por exemplo (... e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino daqueles insubordinados. - 2 Pedro 2:7). Teria sido Ló vítima ou vilão?
Dois corações
Um que é do mar
E um das canções
Um beijo doce
um cheiro de vendaval
eu guardo em mim
Um deus, um louco, um santo
Um bem e um mal.
O ponto em questão é a divisão que fazemos do mundo em vítimas e vilões. Ouvimos as vítimas e elegemos vilões. Raramente consideramos a possibilidade da vítima ser vilã e da pessoa que instituímos como vilã ser uma vítima. Excluo aqui as crianças vítimas de violências extremas como Isabela Nardoni ou a criança vítima verdadeira e impotente da Procuradora aposentada Vera Lúcia de Sant’Anna. Os crimes hediondos promovidos por psicopatas são, por natureza, inclassificáveis nas categorias de vilões e vítimas. Refiro-me, outrossim, a nós mesmos, e nossos crimes diários e não punidos. Não pretendo justificar erros pessoais e nem atenuar a culpa de quem quer que seja, mas o olhar para a vida com outros olhos e fugir da visão maniqueísta que determina nossa conduta e especialmente o tratamento para com as pessoas.
Sou vítima da inveja e vilão daquela que carrego comigo,
Sou vítima da minha vontade e culpado por me render a sua vileza.
Sou vítima de meu coração e vilão por tê-lo tão ambíguo.
Sou um vilão da estética da vida e vítima de sua inexplicável beleza.
Sou vítima de canções, filmes e livros e vilão por desejar esse perigo.
Sou vítima da mesmice que acovarda, e vilão pela coragem de provocar surpresas.
Sou vítima de inimizades gratuitas e vilão por decepcionar o amigo.
Sou vilão da sabedoria que desprezo e vítima de filosofias e suas sutilezas.
Sou vítima tanto da tradição e como da modernidade, sou vilão do novo e do antigo.
Sou vítima do amor expresso em palavras e vilão por usá-las com tamanha frieza.
Porque as palavras são embarcações que nos levam aonde a imaginação deseja e a realidade não permite. Quando embarcamos precisamos remar muito, mas ao chegar percebemos que valeu a pena... Por isso, sou tanto vítima como vilão do que acabo de escrever, vítima de interpretações e vilão pela autoria.
Todos os exemplos e meios utilizados aqui têm um único objetivo, exortar-nos a ter cuidado com as nossas conclusões quando elegermos nossas vítimas e nossos vilões. Quando avaliar os crimes cotidianos considere que há vilões que se fazem de vítimas e que há vitimas vilãs. Pense nisso quando ouvir relatos de problemas, conflitos, separações, pecados e punições. Tudo começa conosco, quando decidimos não nos assentar na poltrona confortável das vítimas e assumir o ônus indispensável dos vilões. Quanto a mim sou vítima da minha própria vileza, que me torna vilão de mim mesmo.
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