A sala era simples com decoração já antiquada. Na parede um relógio quebrava o silêncio da espera, da janela vinha um vento muito fraco que me fazia lembrar como o dia estava quente. Visitas pastorais são sempre agradáveis e, em geral, nos revelam bem mais sobre as pessoas que as suas palavras poderiam fazer. A mesa fora colocada de tal forma que a televisão pudesse ser assistida durante as refeições, mania de brasileiros. E o sofá gasto, em um tom vermelho escuro era confortável, especialmente para mim que a essa hora do dia já sentia o peso do cansaço se aproximando. Antes que os visitados chegassem ainda tive tempo de me levantar e ver a Bíblia aberta no aparador no canto da sala. Fui até lá e me deparei com o previsível, a Bíblia estava aberta no Salmo 91. Mas como Deus gosta de nos surpreender ao ler os dois primeiros versos desse Salmo, vi o imprevisível, o que eu ainda não havia visto, o que Deus me iluminara para ver naquele momento.
Para começar, Deus recebe aqui Quatro nomes diferentes. Ele é o Altíssimo (Elyon) e o Onipotente (Shadai) no verso primeiro, Ele também é o Senhor (Iaweh) e o Deus (Elohim) no verso dois. Quatro nomes, quatro verdades, quatro olhares diferentes para o mesmo Deus. Os nomes revelam quem ele é, revelam seus atributos e seu caráter. Mais do que isso, esses nomes revelam a experiência do povo de Israel com Deus. Ele é o Elyon de Genesis 14, que livrou Ló de seu cativeiro e que foi louvado pelo Sacerdote de Melquisedeque, e servido por Abraão. Ele é o Elyon, possuidor do céu e da terra (Gn 14.19). Ele é o Shadai que em Genesis 17 estabeleceu sua aliança com Abraão e curando seu coração cheio de dúvidas e incertezas. Ele é o Iaweh de Exodo 3, o grande Eu Sou, que trouxe ao seu povo salvação seja do cativeiro egípcio, seja do cativeiro do pecado e da morte. Ele é Elohim, que embora fosse uma designação comum para os deuses, no caso de Israel é o primeiro nome que Deus recebe. Ele é o Elohim criador do céu e da terra (Gn. 1.1). Nomes que revelam experiências com o Deus vivo.
Ao observar novamente esse dois versos percebi que aqui também Deus se descreve por quatro figuras. Ele é o esconderijo e a sombra no verso primeiro, e é o refúgio e o baluarte (fortaleza) no verso dois. Todas as quatro figuras apontando para a mesma verdade. Ele é a nossa segurança, o lugar de nosso descanso e aquele em quem encontramos abrigo. Cansado da caminhada que chamamos de vida? Deus é nosso esconderijo e sua sombra nos dá descanso. Sentindo-se ameaçado por pessoas ou circunstâncias? Deus é o refúgio e a fortaleza que nos protege. Quatro figuras, quatro perspectivas, quatro esperanças, quatro seguranças, quatro consolos e ânimos. Ele é.
Continuando nessa imersão na passagem bíblica, perdendo inclusive a noção de tempo e espaço, absorvido que estava pelas palavras que me saltavam do texto. Percebi que nesses dois versos o Salmista tem quatro atitudes, quatro ações, quatro respostas à natureza de Deus. O Salmista habita e descansa no verso primeiro, e diz (confessa) e confia no verso dois. Embora sejam quatro verbos, todos eles indicam uma única ação, um único sentimento, uma única atitude, o salmista confia em Deus. Confia ao habitar no esconderijo daquele que “possui os céus e a terra”, Confia naquele que é fiel à sua aliança, confia naquele que é o grande Eu Sou, confia naquele que Criou os céus e a terra. Ele simplesmente se esconde, descansa, refugia-se e confia em Deus.
Por fim, a família chegou à sala. Falaram-me de suas dificuldades, dúvidas e perdas. Relataram as dores mais íntimas que as palavras não conseguem descrever, só as lágrimas e as expressões indescritíveis do rosto. Enquanto ouvia suas queixas e incertezas, em meus pensamentos o Salmo 91 latejava. Ao final, depois de palavras pastorais limitadas e insuficientes, após tentar em vão trazer alguma lógica para o que nossa razão humana é incapaz de compreender, simplesmente lemos e oramos assim:
O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente diz ao SENHOR: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio.(Salm 91:1-2)
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