Mortos que sepultam mortos
(Lc 9.59 e 60)
Ele caminhava com passos firmes, porém não rápidos; seguros, mas não apressados. A seu redor uma multidão o acompanhava. Homens, mulheres e crianças; adultos e jovens; ricos e pobres; gente importante em companhia de anônimos sem importância. Desesperados em busca de uma esperança; curiosos em busca, não de boas novas, mas apenas de notícias; rebeldes em busca de motivos para a sua revolta. Sofredores em busca de alívio dividiam espaço com aproveitadores em busca de vantagens. Aqueles que se viam como exemplos de pessoas abençoadas ladeavam aqueles que eram o retrato da maldição. Enfim, uma multidão que ia a seu lado, seja no calor e sequidão do deserto, seja no frio da noite palestinense. Ás vezes eram muitos, tanto que não se podia contar, outras vezes eram poucos, talvez apenas os 12 discípulos que ele escolhera. Mesmo assim ele caminhava com quem sabe para onde vai.
Ele para no caminho e voltando-se para um deles, apenas um dentre a multidão, disse: “Segue-me...”. Justifica-se o convidado (se é que podemos chamá-lo assim): “Deixa-me sepultar meu pai”. Pedido justo uma vez que a responsabilidade de providenciar um enterro digno aos progenitores era uma das tarefas mais importantes para os judeus. Mais importante que a leitura da lei, mais importante que o serviço do templo, mais importante que o sacrifício da páscoa, mais importante que o rito da circuncisão. Contudo não podia ser mais importante que o Reino. Não se trata em saber qual das atividades humanas é mais importante, mas perceber que a decisão pendia entre uma ação divina e outra humana, uma celestial e outra terrena, uma eterna e outra finita. Daí a resposta: “deixa os mortos o sepultar seus próprios mortos”. Não me preocupa, no momento, o fato do pai daquela pessoa estar ainda vivo e ele ter pedido para Jesus aguardar até a ocasião da sua morte para poder segui-lo, nem tão pouco se a sua resposta foi afirmativa ou não. Mas paro para pensar em quem são esses mortos que devem sepultar os outros mortos.
E se eu não estiver enganado esses mortos são os mortos que sepultam e casam, que trabalham e enriquecem, que amam e odeiam. Eles compram e vendem em lojas, eles freqüentam bares, mas freqüentam templos também. Eles conversam conosco, nos atendem no posto de gasolina, na padaria e no supermercado. Eles estão no shopping, assistem filmes e fazem amigos. Conversam, riem e enraivecem, mas estão mortos. Como não crêem e por isso não seguem a Jesus, a sepultura tem para eles mais valor que o Autor da Vida (At 3.15), o casamento tem mais valor que aquele que ajunta (Mt 19.6), o trabalho tem mais valor que aquele que dá o sustento (Sl 127.2). A diferença entre os mortos que devem sepultar os mortos e os vivos que também sepultam mortos não são as atividades que exercem, mas o valor que atribuem a Jesus e seu Reino. Seguem-no porque o amam, amam-no porque crêem nele, crêem porque foram chamados. Um amor tão profundo e íntimo, tão forte e inteiro que faz com que a paixão humana mais avassaladora pareça interesse passageiro de criança.
Mas não se trata apenas de importância, mas também de urgência. Não significa que o sepultamento não tenha valor para Jesus ou que o casamento seja irrelevante para ele, mas significa que nada e ninguém pode ser maior que o Reino. E o Reino requer urgência. Não dá para adiar, não se pode postergar, não é sensato negligenciar, e nem é sábio ignorar. Pois é isso que separa vivos de mortos. Seguir e pregar o reino não pode vir depois dos cursos universitários ou vestibulares, nem podem esperar os filhos ou netos crescerem ou a mudança de emprego. O ato mais urgente dos judeus, a saber, o sepultamento de seus progenitores não podia se comparar com a urgência de anunciar o reino. Sendo assim estaria eu, que caminho em meio à multidão que se acerca de Jesus, entre os vivos ou os mortos? Isso depende de como eu respondo ao seu chamado: “vem e segue-me”.
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